Enfim, espaço e idéias arejadas na Província
Guaíba, 16 de Abril de 2008.
Gostaria
de registrar que, apesar de pretensiosa, a idéia de inserir
nessa coluna um texto sobre a Revolução Russa nesta
coluna é bem oportuna, pois podemos estabelecer através
desse assunto várias conexões com a proposta dessa
coluna. Primeiro, esse é uma assunto de extrema relevância
ao vestibulando, pois além de estar no programa da maior parte
das provas, em especial, esse ano , comemoramos 90 anos de sua
ocorrência e essas efemérides sempre tem um espaço
destacado nas provas , principalmente , em se tratando de UFRGS, sem
falar de sua importância política e ideológica
desta, que, independente de posicionamentos políticos, foi de
fundamental importância na construção do
pensamento do século XX e dos nossos dias. Segundo, que essa
expressão "revolução" talvez precisasse ser
mais fomentada em nossa cidade, se por vezes a designo de província
é com o mais profundo pesar, toda vez que recebemos pessoas
na nossa cidade, o discurso é sempre o mesmo, uma paisagem e
espaços maravilhosos, porém, pouco aproveitados ou sem
o menor aproveitamento.
A
inauguração do restauro da casa de Gomes Jardim passou
a ser um marco em nossa história cultural, não apenas
pelo significado histórico, mas por salientar o que ainda
precisa ser feito, e não é pouca coisa!!!!!! E essa
revolução que me refiro passa muito mais por uma
mudança de atitude da comunidade e poder público, de
perceber que a cultura em nossa cidade precisa ser levada e encarada
com profissionalismo e não como trampolim político,
temos uma produção e espaços em nossa terra que
precisam ser qualificados, artistas tratados com devido respeito e
valorização, não de maneira coadjuvante, mas
como protagonistas, não precisamos de favores e sim atitudes.
Dessa
forma gostaria, além da questão da casa, salientar uma
atitude louvável em nossa "província" , nesse fim
de semana no Bolicho 100% Café, na rua Dr Lauro, o primeiro
"Prosa no Café", um espaço para discussões
que promete uma edição por mês, parabéns
ao Valter pelo espaço! Temos também um exemplo de
diversidade cultural através do resultado da triagem do
Festival da Música Estudantil, promovido pela 12ª CRE
que está contemplando as regiões que nos cercam e a
produção musical das escolas.
É
isso aí !!! Atitude Guaíba!!!!! Precisamos muito
disso!!!!
REVOLUÇÃO RUSSA
Antecedentes
"Não
queremos lutar, mas defenderemos os sovietes!"
Até
1917, o Império Russo foi uma monarquia absolutista. A
monarquia era sustentada principalmente pela nobreza rural, dona da
maioria das terras cultiváveis. Das famílias dessa
nobreza saíam os oficiais do exército e os principais
dirigentes da Igreja Ortodoxa Russa.
Pouco
antes da Primeira Guerra Mundial, a Rússia tinha a maior
população da Europa, com cerca de 350 milhões de
habitantes. Defrontava-se também com o maior problema social
do continente: a extrema pobreza da população em geral.
Enquanto isso, as ideologias liberais e socialistas penetravam no
país, desenvolvendo uma consciência de revolta contra os
nobres. Entre 1860 e 1914, o número anual de estudantes
universitários cresceu de 5000 para 69000, e o número
de jornais diários cresceu de 13 para 856.
A
população do Império Russo era formada por povos
de diversas etnias, línguas e tradições
culturais. Cerca de 80% desta população era rural e 90%
não sabia ler e escrever, sendo duramente explorada pelos
senhores feudais. Com a industrialização foi-se
estabelecendo progressivamente uma classe operária, igualmente
explorada, mas com maior capacidade reivindicativa e aspirações
de ascensão social. A situação de extrema
pobreza e exploração em que vivia a população
tornou-se assim um campo fértil para o florescimento de idéias
socialistas.
A decadência da monarquia
czarista
Para
compreender as causas da Revolução Russa, é
fundamental conhecer o desenvolvimento básico das estruturas
socioeconômicas na Rússia, durante o governo dos três
últimos czares.
Alexandre II (1858 - 1881)
Alexandre
II tinha consciência da necessidade de se promover reformas
modernizadoras no país, para aliviar as tensões sociais
internas e transformar a Rússia num Estado mais respeitado
internacionalmente. Com sua política reformista, Alexandre II
promoveu, por exemplo:
-
a
abolição da servidão agrária,
beneficiando cerca de 40 milhões de camponeses que ainda
permaneciam submetidos ao mais cruel sistema de exploração
de seu trabalho;
-
a suspensão
da censura aos livros e à imprensa;
-
o incentivo ao
ensino elementar e a concessão de autonomia acadêmica
às universidades;
-
a concessão
de maior autonomia administrativa aos diferentes governos das
províncias.
Mesmo
sem provocar alterações significativas na estrutura
social existente na Rússia, a política reformista do
czar encontrou forte oposição das classes conservadoras
da aristocracia, extremamente sensíveis a quaisquer perdas de
privilégios sociais em favor de concessões ao povo.
Apesar
das medidas reformistas, o clima de tensão social continuava
aumentando entre os setores populares. A terra distribuída aos
camponeses era insuficiente, estando fortemente concentrada nas mãos
de uma aristocracia latifundiária. A esta faltavam no entanto
recursos técnicos e financeiros para uma modernização
da agricultura. Esses problemas se traduziam na baixa produtividade
agrícola, que provocava freqüentes crises de
abastecimentos alimentares, afetando tanto os camponeses como a
população urbana.
Em
1881, o czar Alexandre II foi assassinado por um dos grupos de
oposição política (os Pervomartovtsi) que
lutavam pelo fim da monarquia vigente, responsabilizada pela situação
de injustiça social existente.
Alexandre III (1881 - 1894)
Após
o assassinato de Alexandre II, as forças conservadoras russas
uniram-se em torno do novo czar, Alexandre III, que retomou o
antigo vigor do regime monárquico absolutista.
Alexandre
III concedeu grandes poderes à polícia política
do governo, que exercia severo controle sobre os setores
educacionais, imprensa e tribunais, além dos dois importantes
partidos políticos (Narodnik e o Partido Operário
Social-Democarata Russo), que queriam acabar com a autocracia
passaram a actuar na clandestinidade. Impedidos de protestar contra a
exploração de que eram vítimas, camponeses e
trabalhadores urbanos continuaram sob a opressão da
aristocracia agrária e dos empresários industriais.
Estes, associando-se a capitais franceses, impulsionavam o processo
de industrialização do país. Apesar da repressão
política comandada pela Ochrana, as idéias
socialistas eram introduzidas no país por intelectuais
preocupados em organizar a classe trabalhadora. Alexandre III faleceu
em 1894.
Nicolau II (1894 - 1917)
Nicolau
II, o sucessor de Alexandre III, procurou facilitar a entrada de
capitais estrangeiros para promover a industrialização
do país, principalmente da França, da Alemanha, da
Inglaterra e da Bélgica, esse processo de industrialização
ocorreu posteriormente à da maioria dos países da
Europa Ocidental. O desenvolvimento capitalista russo foi ativado por
medidas como o início da exportação do petróleo,
a implantação de estradas de ferro e da indústria
siderúrgica.
Os
investimentos industriais foram concentrados em centros urbanos
populosos, como Moscovo, São Petersburgo, Odessa e Kiev.
Nessas cidades, formou-se um operariado de aproximadamente 3 milhões
de pessoas, que recebiam salários miseráveis e eram
submetidas a jornadas de 12 a 16 horas diárias de trabalho,
não recebiam alimentação e trabalhavam em locais
imundos, sujeitos a doenças. Nessa dramática situação
de exploração do operariado, as idéias
socialistas encontraram um campo fértil para o seu
florescimento.
O Partido Operário
Social-Democrata Russo (POSDR)
Com
o desenvolvimento da industrialização e o maior
relacionamento com a Europa Ocidental, a Rússia recebeu do
exterior novas correntes políticas que chocavam com o
antiquado absolutismo do governo russo. Entre elas destacou-se a
corrente inspirada no marxismo, que deu origem ao Partido Operário
Social-Democrata Russo.
O
POSDR foi violentamente combatido pela Ochrana. Embora tenha
sido desarticulado dentro da Rússia em 1898, voltou a
organizar-se no exterior, tendo como líderes principais
Gueorgui Plekhanov, Vladimir Ilyich Ulyanov (conhecido como Lênin)
e Lev Bronstein (conhecido como Trotski).
A divisão do Partido:
mencheviques e bolcheviques
Em
1903, divergências quanto à forma de ação
levaram os membros do partido POSDR a se dividir em dois grupos
básicos:
-
os mencheviques: liderados por Martov, defendiam que os
trabalhadores podiam conquistar o poder participando normalmente das
atividades políticas. Acreditavam, ainda, que era preciso
esperar o pleno desenvolvimento capitalista da Rússia e o
desabrochar das suas contradições, para se dar início
efetivo à ação revolucionária. Como
esses membros tiveram menos votos em relação ao outro
grupo, ficaram conhecidos como mencheviques, que significa
minoria.
-
os bolcheviques:
liderados por Lênin, defendiam que os trabalhadores somente
chegariam ao poder pela luta revolucionária. Pregavam a
formação de uma ditadura do proletariado, na
qual também estivesse representada a classe camponesa. Como
esse grupo obteve mais adeptos, ficou conhecido como bolchevique,
que significa maioria. Trotsky, que inicialmente não se
filiou a nenhuma das facções, aderiu aos bolcheviques
mais tarde.
A Revolta de 1905: o ensaio para a
revolução
Em
1904, a Rússia, que desejava expandir-se para o oriente,
entrou em guerra contra o Japão devido à posse da
Manchúria,mas foi derrotada. A situação
socioeconômica do país agravou-se e o regime político
do czar Nicolau II foi abalado por uma série de revoltas, em
1905, envolvendo operários, camponeses, marinheiros (como a
revolta no navio couraçado Potemkin ) e soldados do
exército. Greves e protestos contra o regime absolutista do
czar explodiram em diversas regiões da Rússia. Em São
Petersburgo, foi criado um soviete (conselho operário)
para auxiliar na coordenação das várias greves e
servir de palco de debate político.
Diante
do crescente clima de revolta, o czar Nicolau II prometeu realizar,
pelo Manifesto de Outubro, grandes reformas no país:
estabeleceria um governo constitucional, dando fim ao absolutismo, e
convocaria eleições gerais para o parlamento (a Duma),
que elaboraria uma constituição para a Rússia.
Os partidos de orientação liberal burguesa (como o
Partido Constitucional Democrata ou Partido dos Cadetes) deram-se por
satisfeitos com as promessas do czar, deixando os operários
isolados.
Terminada
a guerra contra o Japão, o governo russo mobilizou as suas
tropas especiais (cossacos) para reprimir os principais focos
de revolta dos trabalhadores. Diversos líderes revolucionários
foram presos, desmantelando-se o Soviete de São
Petersburgo. Assumindo o comando da situação,
Nicolau II deixou de lado as promessas liberais que tinha feito no
Manifesto de Outubro. Apenas a Duma continuou funcionando, mas
com poderes limitados e sob intimidação policial das
forças do governo.
A
Revolta de 1905 tinha sido ganha por Nicolau II, mas serviu de lição
para que os líderes revolucionários avaliassem seus
erros e suas fraquezas e aprendessem a superá-los. Foi,
segundo Lenin, um ensaio geral para a Revolução
Russa de 1917.
Revolução de 1917
A queda do Czar e o processo
revolucionário
Mesmo
abatida pelos reflexos da derrota militar frente ao Japão, a
Rússia envolveu-se noutro grande conflito, a Primeira Guerra
Mundial (1914-1918), em que também sofreu pesadas derrotas nos
combates contra os Alemães. A longa duração da
guerra provocou crise de abastecimento alimentar nas cidades,
desencadeando uma série de greves e revoltas populares.
Incapaz de conter a onda de insatisfações, o regime
czarista mostrava-se intensamente debilitado.
Palácio Tauride,
sede da Duma e posteriormente do Governo Provisório e do
Soviete de Petrogrado
Numa
das greves em Petrogrado (actualmente São Petersburgo, então
capital do país), Nicolau II toma a última das suas
muitas decisões desastrosas: ordena aos militares que disparem
sobre a multidão e contenham a revolta. Partes do exército,
sobretudo os soldados, apóiam a revolta. A violência e a
confusão nas ruas tornam-se incontroláveis. Segundo o
jornalista francês Claude Anet, morreram em São
Petersburgo cerca de 1500 pessoas e cerca de 6000 ficaram feridas.
Em
15 de março de 1917, o conjunto de forças políticas
de oposição (liberais burguesas e socialistas)
conseguiu depor o czar Nicolau II, dando início à
Revolução Russa.
Revolução de
Fevereiro ou Revolução Branca
A
primeira fase, conhecida como Revolução de Fevereiro,
ocorreu de março a novembro de 1917.
Em
23 de Fevereiro, uma série de reuniões e passeatas
aconteceram em Petrogrado, por ocasião do Dia Internacional
das Mulheres. Nos dias que se seguiram, a agitação
continuou a aumentar, recebendo a adesão das tropas
encarregadas de manter a ordem pública, que se recusavam a
atacar os manifestantes.
No
dia 27 de Fevereiro, um mar de soldados e trabalhadores com trapos
vermelhos em suas roupas invadiu o Palácio Tauride, onde a
Duma se reunia. Durante a tarde, formaram-se dois comités
provisórios em salões diferentes do palácio. Um,
formado por deputados moderados da Duma, se tornaria o Governo
Provisório. O outro era o Soviete de Petrogrado,
formado por trabalhadores, soldados e militantes socialistas de
várias correntes.
Temendo
uma repetição do Domingo Sangrento, o Grão-duque
Mikhail ordenou que as tropas leais baseadas no Palácio de
Inverno não se opusessem à insurreição e
se retirassem. Em 2 de Março, cercado por amotinados, Nicolau
II assinou sua abdicação.
Após
a derrubada do czar, instalou-se o Governo Provisório,
comandado pelo príncipe Georgy Lvov, um latifundiário,
e tendo Aleksandr Kerenski como ministro da guerra. Era um governo de
caráter liberal burguês, intensamente interessado em
manter a participação russa na Primeira Guerra Mundial.
Enquanto isso, o Soviete de Petrogrado reivindicava para si a
legitimidade para governar. Já em 1 de Março, o Soviete
ordenava ao exército que lhe obedecesse, em vez de obedecer ao
Governo Provisório. O Soviete queria dar terra aos camponeses,
um exército com disciplina voluntária e oficiais
eleitos democraticamente, e o fim da guerra, objectivos muito mais
populares do que os almejados pelo Governo Provisório.
Com
ajuda alemã, Lenin regressa à Rússia em Abril ,
pregando a formação de uma república dos
sovietes, bem como a nacionalização dos bancos e da
propriedade privada. O seu principal lema era: Todo o poder aos
sovietes.
Entretanto,
o processo de desintegração do Estado russo continuava.
A comida era escassa, a inflação bateu a casa dos
1.000 %, as tropas desertavam da fronte matando seus oficiais,
propriedades da nobreza latifundiária eram saqueadas e
queimadas. Nas cidades, conselhos operários foram criados na
maioria das empresas e fábricas.A Rússia ainda
continuava na guerra.
Revolução de Outubro
ou Revolução Vermelha
O cruzador Aurora, navio
que ajudou os bolcheviques a conquistar São Petersburgo, na
época..
A
segunda fase, conhecida como revolução de Outubro, teve
início em novembro de 1917.
Na
madrugada do dia 25 de outubro os bolcheviques, liderados por Lênin,
Zinoviev e Radek, com a ajuda de elementos anarquistas e Socialistas
Revolucionários, cercaram a capital, onde estavam sediados o
Governo Provisório e o Soviete de Petrogrado. Muitos foram
presos, mas Kerenski conseguiu fugir. À tarde, numa sessão
extraordinária, o Soviete de Petrogrado delegou o poder
governamental ao Conselho dos Comissários do Povo,
dominado pelos bolcheviques. O Comitê Executivo do mesmo
Soviete de Petrogrado rejeitou a decisão dessa assembléia
e convocou os sovietes e o exército a defender a Revolução
contra o golpe bolchevique. Entretanto, os bolcheviques predominaram
na maior parte das províncias de etnia russa. O mesmo não
se deu em outras regiões, tais como a Finlândia, a
Polônia e a Ucrânia.
Em
3 de Novembro, um esboço do Decreto sobre o Controle
Operário foi publicado. Esse documento instituía a
autogestão em todas as empresas com 5 ou mais empregados. Isto
acelerou a tomada do controle de todas as esferas da economia por
parte dos conselhos operários, e provocou um caos
generalizado, ao mesmo tempo que acelerou ainda mais a fuga dos
proprietários para o exterior. Mesmo Emma Goldman viria a
reconhecer que as empresas que se encontravam em melhor situação
eram justamente aquelas em que os antigos proprietários
continuavam a exercer funções gerenciais. Entretanto,
este decreto levou a classe trabalhadora a apoiar o recém-criado
e ainda fraco regime bolchevique, o que possivelmente teria sido o
seu principal objetivo. Durante os meses que se seguiram, o governo
bolchevique procurou então submeter os vários conselhos
operários ao controle estatal, por meio da criação
de um Conselho Pan-Russo de Gestão Operária. Os
anarquistas se opuseram a isto, mas foram voto vencido.
Era
consenso entre todos os partidos políticos russos de que seria
necessária a criação de uma assembléia
constituinte, e que apenas esta teria autoridade para decidir sobre a
forma de governo que surgiria após o fim do absolutismo. As
eleições para essa assembléia ocorreram em 12 de
Novembro de 1917, como planejado pelo Governo Provisório, e à
exceção do Partido Constitucional Democrata, que foi
perseguido pelos bolcheviques, todos os outros puderam participar
livremente. Os Socialistas Revolucionários receberam duas
vezes mais votos do que os bolcheviques, e os partidos restantes
receberam muito poucos votos. Em 26 de Dezembro, Lênin publicou
suas Teses sobre a assembléia constituinte, onde ele
defendia os sovietes como uma forma de democracia superior à
assembléia constituinte. Até mesmo os membros do
partido bolchevique compreenderam que preparava-se o fechamento da
assembléia constituinte, e a maioria deles foram contra isto,
mas o Comitê Central do partido ordenou-lhes que acatassem a
decisão de Lênin.
Na
manhã de 5 de Janeiro de 1918, uma imensa manifestação
pacífica a favor da assembléia constituinte foi
dissolvida à bala por tropas leais ao governo bolchevique. A
assembléia constituinte, que se reuniu pela primeira vez
naquela tarde, foi dissolvida na madrugada do dia seguinte. Pouco a
pouco, se tornou claro que os bolcheviques pretendiam criar uma
ditadura para si, inclusive contra os partidos socialistas
revolucionários. Isto levou os outros partidos a atuarem na
ilegalidade, sendo que alguns deles passariam à resistência
armada ao governo.
Durante
este período, o governo bolchevique tomou uma série de
medidas de impacto, como:
-
Pedido
de paz imediata: em março de 1918, foi assinado, com a
Alemanha, o Tratado de Brest-Litovski, onde a Rússia abriu
mão do controle sobre a Finlândia, Países
bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia),
Polônia, Bielorússia e Ucrânia, bem como de
alguns distritos turcos e georgianos antes sob seu domínio.
-
Confisco de
propriedades privadas: grandes propriedades foram tomadas dos
aristocratas e da Igreja Ortodoxa, para serem distribuídas
entre o povo.
-
Declaração
do direito nacional dos povos: o novo governo comprometeu-se a
acabar com a dominação exercida pelo governo russo
sobre regiões tais como a Finlândia, a Geórgia
ou a Armênia.
-
Estatização
da economia: o novo governo passou a intervir diretamente na vida
econômica, nacionalizando diversas empresas.
Guerra civil
Durante
o curto período em que os territórios cedidos no
Tratado de Brest-Litovski estiveram em poder do exército
alemão, as várias forças anti-bolcheviques
puderam organizar-se e armar-se. Estas forças dividiam-se em
três grupos que também lutavam entre si: 1) czaristas ,
2) liberais, eseritas e metade dos socialistas e 3) anarquistas. Com
a derrota da Alemanha em 1919, esses territórios tornaram-se
novamente alvo de disputa, bem como bases das quais partiriam forças
que pretendiam derrubar o governo bolchevique.
Ao
mesmo tempo, Trotsky se ocupou em organizar o novo Exército
Vermelho. Com a ajuda deste, os bolcheviques mostraram-se preparados
para resistir aos ataques do também recém formado
Exército polonês, dos Exércitos Brancos de
Denikin, Kolchak, Yudenich e Wrangel(que se dividiam entre as duas
primeiras facções citadas no paragrafo anterior), e
também para suprimir o Exército Insurgente de Makhno e
a Revolta de Kronstadt, ambos de forte inspiração
anarquista. No início de 1921, encerrava-se a guerra civil,
com a vitória do Exército Vermelho. O Partido
Bolchevique, que desde 1918 havia alterado sua denominação
para Partido Comunista, consolidava a sua posição no
governo.
Criação da União
Soviética
Terminada
a guerra civil, a Rússia estava completamente arrasada, com
graves problemas para recuperar sua produção agrícola
e industrial. Visando promover a reconstrução do país,
Lenin criou, em fevereiro de 1921, a Comissão Estatal de
Planificação Econômica ou GOSPLAN,
encarregada da coordenação geral da economia do país.
Pouco tempo depois, em março de 1921, adaptou-se um conjunto
de medidas conhecidas como Nova Política Econômica
ou NEP. Entre as medidas tomadas pela NEP destacam-se:
liberdade de comércio interno, liberdade de salário aos
trabalhadores, autorização para o funcionamento de
empresas particulares e permissão de entrada de capital
estrangeiro para a reconstrução do país. O
Estado russo continuou, no entanto, exercendo controle sobre setores
considerados vitais para a economia: o comércio exterior, o
sistema bancário e as grandes indústrias de base.
O Governo Operário na União
Soviética
Desde
1918, após uma tentativa de assassinato de Lenin no mês
de agosto com a participação de membros do partido
Socialista Revolucionário, os comunistas tinham proibido os
outros partidos políticos. Em abril de 1922, Stalin foi
nomeado secretário-geral do Partido, encarregando-se de
combater as facções de oposição no
interior do Partido e de garantir os postos importantes da
administração estatal para pessoas da inteira confiança
do regime- o que foi por ele utilizado para impor à
administração interna a hegemonia do seu grupo pessoal.
Em
dezembro de 1922, foi organizado um congresso geral de todos os
sovietes, ocorrendo a fundação da União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). O
governo da União, cujo órgão máximo era o
Soviete Supremo (Legislativo), passou a ser integrado por
representantes das diversas repúblicas.
Competia
ao Soviete Supremo eleger um comitê executivo (Presidium),
dirigido por um presidente a quem se reservava a função
de chefe de estado. Competiam ao governo da União as grandes
tarefas relativas ao comércio exterior, política
internacional, planificação da economia, defesa
nacional, entre outros.
Paralelamente
a essa estrutura formal, estava o Partido Comunista, que controlava,
efetivamente, o poder da URSS. Sua função era controlar
os órgãos estatais, estimulando sua atividade e
verificando sua lealdade e manter os dirigentes em contato permanente
com as massas. Também assegurava à população
a difusão das ideologias vindas da alta cúpula.
A ascensão de Stalin
Lênin,
o fundador do primeiro Estado socialista, morreu em janeiro de 1924.
Teve início, então, uma grande luta interna pela
disputa do poder soviético, Num primeiro momento, entre os
principais envolvidos nesta disputa pelo poder figuravam Trotski e
Stalin.
Trotski
defendia a tese da revolução permanente, segundo a qual
o socialismo somente seria possível se fosse construído
à escala internacional. Ou seja, a revolução
socialista deveria ser levada à Europa e ao mundo.
Opondo-se
a tese trotskista, Stalin defendia a construção do
socialismo num só país. Pregava que os esforços
por uma revolução permanente comprometeriam a
consolidação interna do socialismo na União
Soviética.
A
tese de Stalin tornou-se vitoriosa. Foi aceita e aclamada no XIV
Congresso do Partido Comunista.
Trotski
foi destituído das suas funções como comissário
de guerra, expulso do Partido e, em 1929, deportado da União
Soviética. Tempos depois, em 1940, foi assassinado no México,
a mando de Stalin, por um agente de segurança soviético,
que desferiu no antigo líder do Exército Vermelho
golpes de picareta na cabeça.
A burocracia e a degeneração
do estado operário
A
partir de dezembro de 1929, Stalin converteu-se no ditador absoluto
da União Soviética. O método que utilizou para a
total conquista do poder político teve como base a sua
habilidade no controle da máquina burocrática do
Partido e do Estado, bem como a montagem de um implacável
sistema de repressão política de todos os opositores.
Desse modo, Stalin conseguiu eliminar do Partido, do Exército
e dos principais órgãos do Estado todos os antigos
dirigentes revolucionários, muitos dos quais tinham sido
grandes companheiros de Lénin, como Zinoviev, Bukharin,
Kamenev, Rikov, Muralov entre outros.
Depois
de presos e torturados, os opositores de Stalin eram forçados
a confessar crimes de espionagem que não haviam praticado. E,
assim, conhecidos patriotas eram executados como traidores da pátria.
Era a farsa jurídica que caracterizou as chamadas depurações
estalinistas.
Durante
o período stalinista (1924 - 1953) calcula-se que o terror
político soviético foi responsável pela prisão
de mais de cinco milhões de cidadãos e pela morte de
mais de 500 mil pessoas.