Para voltar irei publicar um texto imperdível do Ricardo Almeida, sobre a dinâmica das Redes Sociais, confira:
Nos primeiros dias de janeiro de 2011, a Sony anunciou que não
atualizaria mais a versão do Android de uma de suas linhas de celulares,
o Xperia.
No mesmo instante, o Twitter foi inundado por legiões de usuários
reclamando e xingando a marca de todos os nomes possíveis e imagináveis.
Em poucas horas, “Sony Xperia” já aparecia em meio aos Trending Topics
da rede, comprovando a força da ira coletiva. Sabe o que aconteceu
depois?
Os milhões de usuários que passaram pelo Twitter e viram estampado
nos TTs apenas o termo “Sony Xperia” não entenderam que se tratava de
uma crise: ao contrário, eles acreditaram ser um elogio espontâneo da
coletividade à marca e, rapidamente, passaram a contribuir com uma
infinidade de tweets positivos ao celular.
Em poucas horas, a quantidade de elogios ao Sony Xperia chegou ao
dobro do volume de críticas, fazendo com que a crise se apagasse
sozinha, extinta pela própria dinâmica das redes sociais que a fez
surgir.
A coletividade do egocentrismo
O caso acima seria apenas mais um fenômeno das mídias sociais não fosse o
fato dele sintetizar, de maneira ímpar, o alto grau de egocentrismo do
usuário (e, consequentemente, da coletividade).
Afinal, se os TTs são um reflexo da opinião da coletividade em um
determinado período, como interpretar essa inversão quase instantânea de
sentimento (que passou de crítica a elogio) pela simples observação de
um assunto comentado?
A resposta é simples: em sua grande maioria, o ser humano não baseia
as suas opiniões em análises aprofundadas de causa e efeito: ele as
baseia, quase que exclusivamente, no que sente ter mais impacto imediato
em seu próprio cotidiano.
Some-se a isso a facilidade de se expressar e de “formar opinião” e se
chega, matematicamente, ao resultado do egocentrismo humano.
Independentemente da legitimidade da reclamação dos usuários quanto à
atitude da Sony, o fato é que a manifestação acabou se anulando
justamente porque uma massa avassaladora de usuários julgou ser mais
importante palpitar sem entender do que entender para palpitar.
Mas pode-se ainda ir muito mais além.
O que foi importante para o usuário em 2010?
2010 foi um ano repleto de acontecimentos que mudaram o Brasil e o
mundo, incluindo a eleição da primeira mulher presidente do país, uma
guerra urbana no Rio de Janeiro entre o BOPE e os traficantes, um
terremoto de proporções avassaladoras do Haiti e muitos, muitos outros
grandes fatos positivos e negativos. Um olhar mais ingênuo diria que
acontecimentos como esses nortearam as motivações da coletividade e
preencheram a Web de assunto.
Todavia, basta olhar os dez termos mais buscados no Google ao longo
de todo o ano passado que se terá uma compreensão mais clara do que
realmente moveu e comoveu o usuário brasileiro:
O usuário brasileiro – que, sob esse aspecto, tem exatamente o mesmo
perfil que o americano, o francês, o inglês ou qualquer outro – se
interessou mais pela Larissa Riquelme, pelo Justin Bieber e pelo Big
Brother do que por qualquer dos tantos grandes fatos que mudaram o
planeta.
O que move a coletividade?
A coletividade, então, não existe? Existe sim – e com uma força maior do que jamais teve, diga-se de passagem.
O que ocorre é que a força do egocentrismo humano é maior do que
qualquer pensamento mais racional, pautado por uma análise fria de
causas e efeitos de longo prazo.
Hoje, 22 de agosto de 2011, a Líbia está em meio a um furor
revolucionário que pode finalizar décadas de uma das ditaduras mais
sanguinárias que o mundo já viu. Mesmo com uma cobertura incessante da
mídia, o assunto aparece apenas em terceiro lugar nos TTs – atrás de
temas que chegam a ser curiosos, para dizer o mínimo:
O que move, então, a coletividade?
Não são os grandes feitos humanos, as grandes tragédias ou mesmo as
revoluções que ocorrem praticamente a cada instante em algum canto do
planeta.
Infelizmente, a maior parte da humanidade não tem (e, provavelmente,
jamais terá) o hábito de se estremecer pelas grandes causas do mundo,
mas sim pelos pequenos fatos que mudarão as suas próximas horas de vida
(incluindo a possibilidade de assistir a um episódio de BBB, de ouvir
Justin Bieber ou de ver a Larissa Riquelme em uma revista).
O que move a coletividade é, como aliás sempre foi, a mais pura individualidade.
E entender isso é um dos passos mais fundamentais para qualquer
pessoa ou marca que deseje se firmar positivamente perante um público
tão ardoroso quanto volúvel.
Quer mover uma comunidade inteira a seu favor? Basta entender antes como mover um único indivíduo.
Que o digam Justin Bieber, Larissa Riquelme, Rede Globo, Sony e tantos outros magos do marketing.
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